Esta decisão pode ter até aparentado algo nobre na visão dos irmãos que me conheciam. Mas para mim era uma maneira de fugir do inferno que minha vida estava se tornando, ao mesmo tempo, ficar perto de F. só mais um pouco.
Mesmo com todas as dificuldades e conflitos pessoais, os rapazes da igreja viam em mim um tipo de lider onde poderiam depositar sua confiança.
Num fim de semana eles se ajuntaram para sair. A idéia inicial era dar uma volta pela cidade a noite e voltar para casa. Mas os jovens queriam ficar na noite e entrar numa das boates. Eu disse que não iria entrar lá. Eu já tinha problemas demais, não queria ficar com esta marca. Falei com o filho de um dos líderes que nos acompanhava esta noite para ligar para o pai dele, se este assim o consentisse poderíamos entrar, caso contrário, voltaríamos para casa. Hoje penso que seria melhor se tivássemos entrado, porque este lider ordenou que voltassemos para casa dele e
chegando lá, fui acusado de corrupção de menores. Tentei explicar que eu estava lá com os rapazes justamente para que eles não se metessem em nenhuma confusão. Foi como falar com uma porta.
Este lider, pai de um dos menores era um dos responsáveis diretamente para assinar os papeis que me autorizavam ser enviado como missionário. Ele pegou toda documetação que já estava em poder dele e jogou em cima da cama, dizendo que por ele eu não iria em lugar nenhum. Que eu era uma vergonha e coisas do tipo.
Como era tarde e eu não tinha para onde ir, ele me deixou dormir naquela noite ali, mas avisou que eu teria que partir no dia seguinte.
O Grande ponto desta história foi que o filho deste lider, foi para casa da vó, não quis enfretar a ira de seu pai.
Comigo estava um dos rapazes que não tinha nada haver com toda esta confusão, mas no fim dos discursos inflamados do lider, me abraçou e disse " Calma, o que tiver de ser será..."
Fui dormir chorando, porque além de ter sido humilhado, estava vendominha chance de me redimir com Deus escapando.
No dia seguinte, levantei arrumei as poucas coisas que eu tinha.
Ele estava na copa, assim que passei, ele me ofereceu comida, pão e leite. Não me lembro de recusei ou aceitei, mas pedi para dar um telefonema. Liguei para Paulo, um homem bom a quem devo muito. Ele também era um lider da igreja, e me disse eu fosse para casa dele.
Lá chegando eu contei o acontecido e ele me explicou que o lider da Missão da area de JF estaria a capela naquela semana pela manhã. Ele me colocaria de frente com este lider e eu poderia conversar com ele.
Assim foi feito e meu documentos foram enviados para os escritórios da igreja passando por cima dos líderes locais através deste Lider da Missão, em pouco tempo meu chamado para missão estava retornando. Enfim eu seria um missionário.
Na semana que meu chamado chegou eu fui até a capela do centro da cidade de JF, e estava recebendo parabéns de varios irmãos por ter sido aceito na missão, existia um certo clima de felicidade, muito comum quando alguém é chamado para missão. O Lider local, aquele que quase me impediu de ir, chegou até mim sorrindo e disse " Irmão venha até minha sala para conversamos..." .
Ele se dirigiu a sala dele. Esperei um tempo, propositalmente e depois fui até a sala onde ele me esperava. Ao entrar, notei que não havia mais o sorriso natural de antes, mas um sorriso dissimulado, na verdade uma mascara mal feita paar esconder a frustração que se confirmou com as suas palavras.
Ele me estendeu a mão e disse:
- Parabéns irmão... você conseguiu.
Apertei a sua mão e disse "obrigado" , dei as costas e saí.
Deve ter sido muito confuso para ele.
Para mim, não posso esconder que tive uma certa satisfação.
Eu nunca mais estive com este homem. Nunca mais o vi. Não tenho memoria dele depois disso.
Quando embarquei no onibus para São Paulo indo para missão, era noite.
Poucas pessoas foram na rodoviária se despedir.
Paulo, F., Augusto, Mãezinha... e mais alguns poucos.
Acho que foi bom assim.
As que foram lá, eram meu amigos de verdade.