quinta-feira, maio 18, 2006

:: Capitulo XXVI :: Sopa na noite.

Naquela noite quando cheguei na república foi como chegar numa cela com prisioneiros demais. Havia rapazes espalhados pelo chão, dormindo, alguns enrrolados em seus cobertores domiam em contato direto com o chão. A maioria deles eu não conhecia.
Perguntei de onde eram, e alguém me explicou que estava havendo um tipo de seleção na cidade para trabalharem na fabrica de tecidos e eles eram conhecido de um ou outro rapaz da república
A gente tava com fome. Ninguém havia comido nada.
Ronaldo abriu a geladeira e encontrou um talo de repolho, molho inglês e na lata de mantimentos havia algo como meio como de arroz. Cozinhamos tudo isso e fizemos uma sopa, que dividimos com todos naquela noite.
É interessante como a fome deixa qualquer comida gostosa.

:: Capitulo XXV :: Cão sem dono.

Quando minha tia me mandou embora eu logo consegui alugar um lugar para morar junto com outro membro que mal aparecia lá. No entanto ele tinha moveis de quarto e eu só tinha um som. Minha mãe vei e me trouxe entre alguns utencílios de cozinha um carderno com receitas simples. Mas não deu certo morar com aquele rapaz, e a convite de uma familia da igreja eu fui morar na casa deles. num quartinho bem pequeno.
Eu dormia no chão. Quando o inverno apertou, forrei com jornais debaixo do colchão para ter um melhor isolamento.
Pouco antes do fim do contrato de estágio, a familia s mudou para o amazonas e então eu fui para uma república ( uma casa alugada por repazes) onde morava um outro irmão... depois essa república se dividiu em dois... foi ali que morei até ficar desempregado.
Deve ter sido o período onde passei mais dificuldades, pois não havia oque comer, e nunca tinha dinheiro suficiente para nada. Com frequencia eu pegava emprestada a bicicleta de meu primo para me locomover de um lugar para outro. Mas era tão tão difcil, pedalar com fome num lugar onde só tem morro.
Eu não tinha dinheiro para cortar o cabelo, e nem para comprar um barbeador, estava ficando com a aparencia de um mendigo, mas isso era o de menos...
Então surgiu um emprego, era para trabalhar como dedetizador com um dos membros.
O lider da igreja coçou o queixo, mas não me falou nada específico.
Em resumo, o cara é um enrrolado, não me pagava, fui vivendo de algumas economias que tinha no banco, era bem pouco, mas dava para tocar o barco.
Em busca de comida, cada dia eu ia para casa de um amigo, ou de alguém conhecido na esperança de filar algum rango. Eu nem sentia fome mais...estava fraco.
Mesmo não sendo pago , não tendo horário, trabalhar como dedetizador tinha seus momentos de conpensação. Um noite eu fui dedetizar uma padaria.
Essas eram as melhores. Quando entrei na padaria, disse a todos que não fossem lá, não entranssem até que eu disse que poderia. Tinha um tacho de brigadeiro sujo em cima da pia. Jantei brigadeiro.
mas chegou um momento que eu não poderia mais ficar naquele emprego. Quase todas as noites eu tinha que ir fazer dedetizações e ainda tinha que acordar no dia seguinte cedo. Eu estava magro, e logo ficaria doente de andar para casa na madrugada fria de JF.
No fim do mês não houve pagamento. Desisti.
Acordei e fui até a cidade.
Ele havia alugado uma saleta num predio velho, destes cujo o piso de madeira fazem um barulho oco quando se anda. Tomei o elevador antiguissimo, com portas de grade... "segui para o escritório".
- Eu não quero trabalhar mais com você... eu disse vacilante.
A cena seguinte foi deprimente. O homem fez um escandalo tão grande, ensaiou um choro, ajoelhou, implorou... tudo muito disimulado... infelizmente aquela era a unica maneira que eu tive para receber os atrasados. Ele ainda me enrrolou muito... mas me pagou.

quarta-feira, maio 17, 2006

:: Capitulo XXIV :: O Gerente - parte II

Eu sabia que o gerente não iria me deixar quieto por muito tempo.
Um dia, fui falar com uma das mulheres que trabalhavam no caixa e ela começou a gritar comigo, fiquei atônito... não sabia o porque de tanto mal humor, o certo era, eu estava na reta...
Assim me relacionamento naquele trabalho foi deteriorando. Fofocas e isolamento. Cada dia que se passava eu me encontrava mais e mais sozinho naquela porta de cinema. Os dias eram sem fim.
Um noite o gerente como de costume levou o jorginho para o acerto dos caixas, logo depois Jorginho desceu e me disse que o grente queria falar comigo. De fato o proprio veio logo atrás e disse para que eu o seguisse. Era a ultima seção, minha portaria já estava fechada. Segui-o por uma escada que subia para os antigos balcões do velho cine-teatro. Um corrimão que mesmo no escuro da sala de projeção, reparei que era todo entalhado. Depois seguimo por um corredor que ia por cima se extendendo por todo lado esquerdo da sala, como um marquise, enquanto andava, contemplei todo gigantismo do prédio, suas paredes e teto pintados, todo estilo clássico. Em algum dia no passado, aquele predio decadente e sujo, tomado por teia e poeira deve ter sido muito lindo, um luxo da época... me perdi por alguns instantes nos meus pensamentos. Eu nunca tinha passado por ali. Chegamos e uma saleta. Uma grande mesa com uma cadeira bonita. Ele se sentou e eu permaneci de pé.
Ele começou um discurso euforico sobre como ele era fiel aos Bonato (nota: os Bontato eram os irmão que eram donos da companhia que gerenciava todas as sala de cinema de JF), e de como ele tinha chegado aquele magnifico posto de gerente do Cine Central... e sobre sua autoridade e bla bla bla... eu não estava entendendo nada, me limitei a responder "Sim senhor"da maneira mais polida e educada que podia afim que lha acalmar os nervos. Ledo engano. Aquilo o tornou mais furioso... explico. Ele disse que quando queria "sacanear" seu professor respondia da mesma maneira. Em outras palavras, ele achou que eu estava sendo debochado, no entanto acho que ele se cansou e parou. Virei as costas e voltei para portaria. Fiquei com raiva do gerente.
No dia seguinte , um bebado cruzou a porta do cinema. Ele se virou para uma das caixas e disse "Mais um cliente para o porteiro...", se referindo ao fato dos bebados que vomitam e que eu deveria ir limpar.
No fim daquele expediente, o supervisor geral , era um senhor de cabelos brancos, com ares de avarento, seu Waltencir, veio até o Cine Central pegar alguns documentos. Fui até ele e disse que eu estava sendo desviado de minhas funções de porteiro para ficar limpando, mais especificamente "lipando vomitos dos bebados que frequantavam o cinema". Ele era a unica pessoa que poderia fazer alguma coisa por mim...mas não fez.
No dia seguinte, pedi minha demissão.
Alguns meses depois saindo com amigos encontrei com o gerente no ponto de onibus. É claro só olhei de longe, e ele me viu com ceteza. Estava serio, sozinho, cabelos diferentes.
Posteriormente fiquei sabendo que logo depois de mim ele também havia sido demitido e que Jorginho, um funcionário tão fiel, foi junto. Soube também que o gerente, que tinha tido um filho recentemente, do qual se gabava muito, dizendo pelo hall do Cine Central, que ele seu seu "principecizinho" tinha se separado.
A esposa dele descobrira que ele era homossexual.
Supresos ?
Eu não.

Nota: Em 1996 O Cine Teatro Central em Juiz de Fora foi reinalgurado, totalmente restaurado e tombado pelo patrimônio histórico cultural, agora é administrado pela reitoria da UFJF. Neste site aqui encontrei fotos do prédio restaurado que muito me emocionaram, pois sempre foi desta maneira que eu eu o queria ver.

quinta-feira, março 09, 2006

:: Capitulo XXIII :: Vale alguns pães.

Um dia quando eu passei como de costume para pegar comida na minha tia, ela não tinha ido trabalhar. putz dei de cara com ela... não peguei comida e saí logo, fui direto para o trabalho. Sentei-me na minha cadeira de porteiro.... é hoje não tem almoço.
Lembrei do capitulo 6 de Mateus versiculo 31 até 33
Era pouco provável que no meio da semana alguma irmã viesse me trazer algo, pois elas só me traziam domingo, quando elas sabiam que eu não passava na minha tia. Deixei nas mão de Deus.
Deu a hora do almoço e eu não tinha nada.
As horas parecem se arrastar quando a gente está de estomago vazio.
por volta das 15:00 um dos menores chegou até mim e me entrou um vale alimentação. Sujo, de pouco valor... disse "segura aí tio". Estava doidão de cola, e com velocidade que apareceu, assim também sumiu.
Olhei o vale desacretitado. Com a maior fome e um vale sujo, provavalmente vencido. Olhei a trás do valee constatei que o prazo dele ainda era para o proximo mês. Pedi liçensa ao supervisor e fui correndo até uma padaria proxima dali que eu sabia que aceitava vales.
O valor era muito baixo, mas deu para comprar alguns pães.
Sentei-me numa escada dentro do velho prédio do cinema e aqueles foram os pães mais gostosos que comi na minha vida.

:: Capitulo XXII :: A fome e a caridade

O maior dos problemas para quem passa dificuldades com a falta de dinheiro é a comida. Você pode cortar tudo, roupas, sapatos, shapoo, sabonete, diversão... para tudo isso se dá um jeito, mas a comida. Comida tem que ter todo dia... e tinha dias que não tinha. Enquanto eu trabalhava com estágiário, eu poderia comer lá na Siderurgica. Mas nos dias de folga era dificil. Tinha uma folga grande, esta era a pior. Depois de ter saído de lá esta situação se agravou.
Trabalhando no cinema a coisa não melhorou. Eu deveria ter que levar comida em uma marmita. Minha tia me ajudava. Eu passava na casa dela e levava da casa dela mesmo alguma coisa. Mas isso era feito sem ela estar lá. Eu não queria que ela me visse pedindo coisas lá na casa dela. Então era o mesmo esquema... quando ela saía eu chegava e antes dela chegar eu já tinha saído.
Sem dinheiro para chegar ao trabalho eu andava até o cinema. Eram três ladeiras descendo e duas subindo até o centro. A Empregada me ajudava fazendo a comida um pouco mais cedo.
Domingo era o dia em que eu ia para igreja. A pé também. E depois da igreja ia direto para o cinema. Não tinha como pegar comida na minha tia, mas devez em quando aparecia uma irmã da igreja com uma marmita. Por essas meu olhos se enchem de lágrimas de agradecimento. Por algumas vezes era a unica coisa que eu comia no dia.
Eu enfrentei tudo com bom humor. Sempre sorridente, nao queria que tudo aquilo me derrubasse. Eu deveria ter voltado para Campos. Lá tinha uma mãe cheia de saudades. Eu não poderia voltar. Cumprindo um preríodo probatorio vergonhoso por ter assediado F. eu não poderia chegar em Campos nessas condições. Eu tinha a impressão que todos saberiam. Então eu fiquei...

:: Capitulo XXI :: O Gerente

O Gerente do cinema tinha um ar de muito superior. Um negro alto, que sempre nos olhava de cima para baixo. Logo no primeiro dia ele se sentou em uma das cadeiras de engraxate que ficavam na frente do cinema e altivo, teve seus sapatos engraxados enquanto nos olhava fixamente. Na hora de fechar sempre chamava o Jorginho para "fechar o borderô"... se esta for mesmo a palavra certa. "Borderô", acredito eu , era o caixa. Mal começava a ultima seção lá iam os dois para dentro do cinema, enquanto eu cuidava das duas portas (eram duas salas de projeção).
Não sei como começou a antipatia do gerente por minha pessoa. Mas ele começou a me mandar fazer coisas fora da portaria. Uma delas foi desentupir a pia do banheiro masculino. Eu entrei na sala de projeção em direção ao banheiro. Ainda não contei isso, mas o cinema tratavasse de um cine teatro enorme daqueles antigos. Cinema com balcão, ou camarote. Um prédio que deveria ter sido muito bonito em seus tempos de glória. Acho que havia uma pintura no teto. Agora não passava de uma sala antiga, um museu. Ante os modernos confortáveis cinemas multiplex, aquilo não passava de um pulgueiro, e mal frequentado. Embora fosse a maior sala da compania, não havia dinheiro para manutenção, nem tão pouco interesse. Aquele lugar decadente só passava os filmes sem sucesso, era o fim da linha dos funcionários daquela companhia.
De volta ao banheiro, igualmente antigo e imundo, quando entrei me deparo com um homem se mastubando. Como ele estava de frente para o mictório e de costas para mim, nem deve ter notado a minha presença assustada na porta, e de lá mesmo voltei.
Cheio de complexos , cheio de medos, confuso comigo mesmo, meu coração batia forte. Nojo da cena. Na tela estava passando "Orquídea Selvagem", e um homem estava se masturbando no banheiro. Nojo...nojo.... arg !
Esperei lá fora que o cara saísse. Depois entrei para ver a tal pia entupida.
Alguém havia vomitado na pia e ligado a torneira. O material regurgitado entupiu o ralo da pia... a louça branca com marcas de ferrugem já era nojenta por si só, agora estva cheia de vomito e água suja. Não havia outra maneira de desentupir a não ser metendo a mão naquele caldo. Tive odio daquele emprego. Homens se masturbando... vomitos... um prédio decadente em um lugar decadente. Em frente ao cinema juntavam-se menores de rua cheirando cola. Hoje eu me pergunto porque eu estava ali. Pedi a Deus uma solução para o entupimento... encontrei no baneiro mesmo um pedaço de um arame duro que enfiei instintivamente no ralo. Não funcionou... tornei a introduzir o arame e de repente a guas vomito e tudo mais começou a descer pelo ralo... apenas abri a torneira para mandar o resto que ficara nas paredes da louça.
"- A pia está desentupida. "
Eu disse aquilo num tom monocórdio, baixo, porém olhando diretamente nos olhos do gerente. Ele fez algum esforço para disfarçar o ar de surpresa. Dei as costas e voltei para minha portaria. Eu sabia que aquilo não acabaria por ali.

:: Capitulo XX :: Deveria ter ido embora.

Sem trabalho eu deveria ter ido embora para Campos, mas, eu ainda havia economizado algum dinheiro e dava para pagar a república ainda por algum tempo.
Era fato, eu ainda estava envolvido com F. Isso foi antes de me confessar.
Aconteceu então de os rapazes da república resouverem se separar em dois grupos e formar duas republicas. Eu fui para casa que era mais proxima da casa do meu tio. Por várias vezes fui lá almoçar porque a grana era curtíssima e não havia muito oque comer. Chegava cedo. A empregada sempre tinha alguma comida para mim. Eu ia sempre depois que minha tia saía e saía sempre antes que ela chegasse. Não sei, era vergonha de estar alí. Parecia que eu estava mendingando alguma coisa. Me lembro uma vez que a empregada me deu algumas coiasas para levar. Arroz, farinha, trigo, uma lata de leite condensado. Acho que foi a tia que pediu para ela me dar.

Arrumei um emprego de porteiro num cinema do centro da cidade. Eu até gostava, o chato era que as folgas eram na segunda... haviam duas mulheres que trabalhavam nos caixas. Uma delas, tinha o cabelo pintado de loiro, muito expansiva sempre conversava muito alto, ela me tratava muito bem. A outra uma senhora morena de voz doce, vivia a falar de seus filhos gemeos, sempre prometia que um dia iria traze-los para que eu os conhecesse. Eu nunca os conheci, porque ela entrou de férias na época em que eu saí do cinema e eu nunca mais as vi.
Havia outros dois porteiros além de mim. O Jorginho, mancava de uma das pernas. Não tinha muita instrução, era um pouco "puxa-saco". E outro cara, um moreno pequeno bem magro. Muito discreto, era homo, estava deixando a empresa. Eu ficaria no lugar dele.
O gerente era recém chegado também.
Um homem enorme. Um problema enorme...
É mesmo... eu deveria ter ido embora para Campos.

:: Capitulo XIX :: O fim do Estágio.

Os dias se passavam em JF, a vida ia dando seu jeito. Depois de F. não tive mais nenhum envolvimento com ninguém, não que me lembre.
Eu continuava sendo uma pessoa popular dentro da igreja.

Morei na casa alugada durante muito tempo, mas discuti com o camarada que "dividia" o aluguel comigo. Na veradade , discuti com a namorada dele e mesmo que ele não aparecesse muito em casa, acabei por indo morar a convite de um casal (também membros da igreja) numa casa mais longe ainda. Ele era militar e havia ganhado uma casa grande e boa numa vila militar. Haveria um quartinho que eles poderiam me ceder. Na mudança perdi mais da metade de minhas coisas. Meus talheres, roupas de cama, objetos pessoais. Não caberiam no quarto e o sofá que minha tia havia me dado, também ficou de fora.

Não demorou muito tempo, ele recebeu um proposta para ir para Roraima trabalhar nas fronteiras. Era uma proposta boa, pois eles venderiam todos os móveis e o exercito compraria movies novos para casa deles lá em Roraima. Fora os adicionais... não sei muito bem , mas seria uma boa, e assim foi que me mudei para um republica onde morava um dos membros da igreja. Ele estava saindo de lá e cederia a sua vaga para mim. Nesta é poca o estágio na siderurgica estava acabando. Eu poderia ser aproveitado, mas nem posso dizer se houve ou não interesse de meu tio para que eu ficasse lá. Acredito que ele era a única pessoa que poderia fazer algo por mim. O fim do contrato de dois anos estava acabando. Antes do fim do contrado ainda fui transferido para uma máquina de trefilar. Trabalho pesado. Eu que nem comia direito, magro e franzino, queimei minha mão e meus braços varias vezes por pura falta de prática na máquina. Eu havia estudado tanto tempo para terminar como um cordador de arame, rolando bobinas de arame da bitola de um dedo, muito pesadas. Passava aqueles turnos pensando do que havia valido tanto tempo estagiando na manutenção, de que havia valido tanto tempo estutando na Escola Técnica, debruçado em livros, acordando cedo esmiuçando desenhos... oque eu era agora... um pião. Não demorou muito me transferiram para uma outra máquina mais leve, que fabricava arame ovalado, mas sei lá não me adaptei. Eu era jovem, obstinado. Fiz corpo mole sim... num fim de turno nem passei o serviço, dei as costas e fui embora... era meu fim ali.