quarta-feira, maio 30, 2007

:: Capitulo XXVIII :: "Você esta morrendo..."

Desempregado em quase sem dinheiro, beirando mesmo a miséria, depois de muitos jejuns, me decidi a ser também um missionário. Eu poderia voltar para Campos e então partir para missão de lá. Mas a verdade era que eu não queria me afastar de F., e não era só isso, havia criado um vinculo de amigos muito bons dos quais eu gostava muito, enfim, fiquei apegado as pessoas. Amor é uma evolução, apego é um atraso.
Passei a fazer pequenos serviços para algumas pessoas para levantar fundos e ir para missão. Decisão que foi comemorada por muitas pessoas. Eu até sinto muito em dizer isso, mas eu não tinha mais nada melhor para fazer. Ser missionário me daria algum sustento, me afastaria de F. mas não tão de imediato.
Nas tentativas de arrumar dinheiro e exames, havia um exame mais caro. Uma barreira e deveria ser solucionada por mim. Antes de ir para missão eu deveria fazer uma revisão nos meus dentes. Caro e dificil. Minha boca não era uma coisa exemplar, e não tinha nenhum irmão disposto a judar, ou pelo menos não que eu soubesse.
Era época de eleições, e um candidato a não-sei-que-cargo precisava pintar umas faixas com o nome dele. Eu havia aprendido a pintar letreiros enquanto trabalhei no Cine Central, pois havia uma equipe que fazia isso pintando placas para o anuncio dos filmes em cartaz.
Eu me ofereci para pintar as tais faixas, muitas, nem me lembro quantas, em troca de um exame em meus dentes, para que eu pudesse ir para missão.
Pintei as faixa e fui levado para o dentista pelo tal candidato, que era até uma pessoa boa.
Meus dentes precisavam muito mais doque uma simples profilaxia, tratamentos de cáries. Haviam dentes que precisavam de tratamento de canal... um serviço caro e demorado ou tinhamos a opção de extração.
Extraí um dente (oque estava em estado mais grave).
Porém por descuido meu, acredito, tive uma hemorragia, e não procurei um hospital ou coisa parecida. Sangrei bastante, até que coloquei agua oxigenada e bicarbonato para tentar estancar o sangue, além de um algodão.
Consegui deter o sangramento, mas a falta de cuidado causou uma infecção. Achei que aquilo era normal, afinal havia extraído um dente, mas a infecção tomou porporções grandes e em poucos dias eu tinha toda a região sublingual e garganta inchadas, e não parava de inchar.
Tomado por uma febre alta fui as ruas em busca de ajuda, bati na casa de um irmão que me atendeu na porta com cara de espanto, mas não me ajudou, não sei dizer o quanto de tempo fiquei perambulando pela rua, mas sei que o pai de F. me mandou até uns médicos que ele conhecia.
Fui até o endereço sozinho caminhando pelas ruas de JF. No consutório, com todo pescoço inchado, queimando de febre fui atendido por um médico que olhou minha boca, e depois chamou uma médica só para ter certeza do diagnóstico.
Ele escreveu um papel, e mamandou para um doutor que atendia do lado de um faculdade de JF que ficava a alguns quarteirões dali.
Mandou-me para lá imediatamente. Chagando lá, perdi a noção do tempo que esperei para ser atendido, portanto não posso afirmar se foi demorado ou não, mas para mim que já estava respirando com dificuldades, febre e dor, parecia uma enternidade. Finalmente entrei no consultorio. O médico pegou o papel que os outros dois primeiro médicos me deram , oque parecia ser apenas uma indicação para que ele me atendesse. Como um bilhete, não sei oconteúdo, não li.
O médico guardou o papel, abriu minha boca com cuidado.
Virou-se para sua mesa, começou a rabiscar uma receita, tornou a virar-se para mim, e disse em tom monocórdio, de um jeito que até hoje me assusta a lembrança.

"- Pegue este papel e vá agora para Santa Casa, você está morrendo."

Pequei a receita e saí do consultório, rogando a Deus em meu coração e mente que não me deixasse morrer alí sozinho na rua. Eu estava sem meus documentos, não seria nem reconhecido. Subindo a rua que dava acesso a avenida que me levaria a Santa Casa senti-me enfraquecendo a cada passo. Meu olhos se encheram de lágrimas e por minha garganta infeccionada e obstruída subiu um choro de angustia.
Cheguei a rececpção da Santa Casa onde mostrei a papel. A mulher me olhou com uma cara de espanto, reação natural de quem me via, não havia mais um pescoço em mim, mais sim uma grande papada, que nada tinha haver com o magro corpo que os jejuns semanais e a propria condição haviam me imposto.
Mais uma vez não sei quanto tempo esperei, consegui um cartão telefônico com poucas unidades que usei para ligar para única pessoa que poderia me ajudar. A mãe de José Agusto. As únicas palavra que consegui dizer foram " Mãezinha, estou na Santa Casa, estou morrendo, por favor me ajude..."
Voltei a sala de espera, acho que desmaiei. Só me lembro sendo amparado por alguém no elevador já sendo levado para um leito. Quando a porta do elvador se abriu, ouvi a voz de alguém dizer "Aí ele aí", tudo ficou escuro... eu perdi as forças, quando fui erguido, amparado, vi que quem foi ao hospital foi a mãe de F.. Mãezinha não pode ir, mas telefonou para a mãe de F. para que que fosse lá.
Ela ficou até quando eu já estava em uma cama, e depois se foi. Ela não poderia ficar.
Até o médico chegar eu pedi várias vezes as enfermeiras que me ajudassem, sempre dizia, "eu estou morrendo"... as enfermeira me deram alguns remédios para aliviar a dor e a febre.
Até quando o médico que havia me mandado para lá, chegou.
Ele me explicou que eu estava com uma infecção chamada Angina de Ludwig.
Fiquei 4 dias internado. Fui visitado pelos irmãos da igreja... minha mãe só soube alguns anos depois. Minha tia, onde morei em JF, nunca teve conhecimento total desta história.


Este na foto não sou eu, é uma imagem de um paciente com Angina de Ludwig para que se tenha uma idéia de como eu fiquei e sim, Angina e Ludwig é grave e pode levar ao óbito.

:: Capitulo XXVII :: Esquecido.

No dia em que contei ao líder da Igreja que havia trocado carícias com o um jovem da igreja, fui afastado de todos os cargos que possuía. Isso era óbivio, eu não era mais digno de fazer alguma coisa na instituição, havia transgredido as regras. Consciente disto, abri meu coração, e me confessei.
Como já relatei, tive que me afastar de F., oque me causou muita dor.
Porém uma outra dor me seria causada mais tarde.
Por ordem do líder eu deveria jejuar toda semana durante todo meu período probatório, afim de "controlar meus apetites e minhas paixões" . Não sei se citei isso ainda, mas a Igreja era algo muito forte em minha vida. Eu queria desesperadamente ser alguém "normal". Eu não queria sentir oque eu sentia, havia falhado fatalmente. Seguir as ordens que me foram dadas cegamente era minha maneira de auto flagelação, embora esta prática não seja doutrina da igreja, foi praticamente o que fiz, tamanha era o peso da culpa que sentia.
Passei a jejuar, conforme "aconselhado" uma vez por semana. Toda semana então me abstive de qualquer alimento sólido ou líquido, inclusive água por 24 horas. Dentro da igreja, durante as reuniões, permanecia calado, mal encarava as pessoas, tinha um sentimento estranho de que todos sabiam o que eu fiz, estava enganado, mas não tive nenhum acompanhamento do líder, e cada vez mais me sentia inferior a todos ali. Então decidi que não era mais digno de orar de joelhos em casa, e sempre o fazia deitado com a cara no chão. Por algumas vezes, enfraquecido pelos jejuns semanais, cansado do trabalho que algumas vezes ia até tarde da noite, adormeci durante minhas orações deitado no chão mesmo.
Como o líder não mais me chamou para conversar (hoje eu sei que foi negligência dele como líder que não me acompanhou) , permaneci neste estado de auto-flagelo, buscando a paz interior até que um dia, informalmente durante uma atividade na igreja onde meu líder jogava uma partida de futebol, me aproximei, e com muita vergonha perguntei:
"- Já faz alguns meses que estou fazendo o que me pediu, jejuando toda semana...até quando terei que faze-lo?"
Um sorrisinho amarelado surgiu no canto da boca do líder quando ele me respondeu com ar muito natural, de quem conta uma piada...
"-Sabe irmão que eu já havia me esquecido de você..."

Esta é uma ferida que guardo na alma até hoje.