quarta-feira, maio 17, 2006

:: Capitulo XXIV :: O Gerente - parte II

Eu sabia que o gerente não iria me deixar quieto por muito tempo.
Um dia, fui falar com uma das mulheres que trabalhavam no caixa e ela começou a gritar comigo, fiquei atônito... não sabia o porque de tanto mal humor, o certo era, eu estava na reta...
Assim me relacionamento naquele trabalho foi deteriorando. Fofocas e isolamento. Cada dia que se passava eu me encontrava mais e mais sozinho naquela porta de cinema. Os dias eram sem fim.
Um noite o gerente como de costume levou o jorginho para o acerto dos caixas, logo depois Jorginho desceu e me disse que o grente queria falar comigo. De fato o proprio veio logo atrás e disse para que eu o seguisse. Era a ultima seção, minha portaria já estava fechada. Segui-o por uma escada que subia para os antigos balcões do velho cine-teatro. Um corrimão que mesmo no escuro da sala de projeção, reparei que era todo entalhado. Depois seguimo por um corredor que ia por cima se extendendo por todo lado esquerdo da sala, como um marquise, enquanto andava, contemplei todo gigantismo do prédio, suas paredes e teto pintados, todo estilo clássico. Em algum dia no passado, aquele predio decadente e sujo, tomado por teia e poeira deve ter sido muito lindo, um luxo da época... me perdi por alguns instantes nos meus pensamentos. Eu nunca tinha passado por ali. Chegamos e uma saleta. Uma grande mesa com uma cadeira bonita. Ele se sentou e eu permaneci de pé.
Ele começou um discurso euforico sobre como ele era fiel aos Bonato (nota: os Bontato eram os irmão que eram donos da companhia que gerenciava todas as sala de cinema de JF), e de como ele tinha chegado aquele magnifico posto de gerente do Cine Central... e sobre sua autoridade e bla bla bla... eu não estava entendendo nada, me limitei a responder "Sim senhor"da maneira mais polida e educada que podia afim que lha acalmar os nervos. Ledo engano. Aquilo o tornou mais furioso... explico. Ele disse que quando queria "sacanear" seu professor respondia da mesma maneira. Em outras palavras, ele achou que eu estava sendo debochado, no entanto acho que ele se cansou e parou. Virei as costas e voltei para portaria. Fiquei com raiva do gerente.
No dia seguinte , um bebado cruzou a porta do cinema. Ele se virou para uma das caixas e disse "Mais um cliente para o porteiro...", se referindo ao fato dos bebados que vomitam e que eu deveria ir limpar.
No fim daquele expediente, o supervisor geral , era um senhor de cabelos brancos, com ares de avarento, seu Waltencir, veio até o Cine Central pegar alguns documentos. Fui até ele e disse que eu estava sendo desviado de minhas funções de porteiro para ficar limpando, mais especificamente "lipando vomitos dos bebados que frequantavam o cinema". Ele era a unica pessoa que poderia fazer alguma coisa por mim...mas não fez.
No dia seguinte, pedi minha demissão.
Alguns meses depois saindo com amigos encontrei com o gerente no ponto de onibus. É claro só olhei de longe, e ele me viu com ceteza. Estava serio, sozinho, cabelos diferentes.
Posteriormente fiquei sabendo que logo depois de mim ele também havia sido demitido e que Jorginho, um funcionário tão fiel, foi junto. Soube também que o gerente, que tinha tido um filho recentemente, do qual se gabava muito, dizendo pelo hall do Cine Central, que ele seu seu "principecizinho" tinha se separado.
A esposa dele descobrira que ele era homossexual.
Supresos ?
Eu não.

Nota: Em 1996 O Cine Teatro Central em Juiz de Fora foi reinalgurado, totalmente restaurado e tombado pelo patrimônio histórico cultural, agora é administrado pela reitoria da UFJF. Neste site aqui encontrei fotos do prédio restaurado que muito me emocionaram, pois sempre foi desta maneira que eu eu o queria ver.