Vivi dias tranquilos mas não menos tentadores. Haviam rapazes bonitos em Atibaia, como em todo lugar e como em todo lugar, eu tenta me manter longe deles. Foi lá que uma moça se apaixonou por mim. Como missionário eu não poderia corresponder, mas disse que voltaria. Naquela época eu ainda lutava para fazer parte do "padrão" casar, ter filhos , ser pai de familia.
Em Atibaia existe a Pedra Grande, uma montanha cuja uma trilha leva até seu topo, um enorme descampado, na verdade uma pedra mesmo. A melhor maneira de aproveitar este "passeio" era subir lá no meio da madrugada. Uma vez lá no topo, era possível avistar várias cidades além da própria São Paulo.
Nós os missionários e os jovens da ala organizamos um passeio até a pedra mirante, e foi empolgante. O objetivo nosso deveria ser a "obra missionária", mas de fato a gente não estava nem aí. Queríamos mesmo conhecer a tal pedra e curtir um descanso.
Foi um passeio e tanto, e organizamos isso de novo, mas desta vez com os outros missionários, numa espécie de reunião especial, tudo isso a revelia do presidente da missão.
Sinto muito por não me lembrar dos nomes e não ter a uma exata precisão dos acontecimentos, por isso minha narração deste momento em diante é vaga.
Mas quando me mudei para Atibaia, havia entrado na missão, gente nova que acabei conhecendo por ocasião de uma de nossas idas ao escritório. E um dos missionários era lindo. Hoje meus gostos mudaram radicalmente e eu jamais me deixaria levar por aquele tipo de beleza, mas naquele momento algo nele me chamou atenção. Olhos claros, pele branca, alto e... simpático. Muito simpatico.
Quando organizamos nossa segunda excursão a pedra grande, ele estava lá.
Foi uma noite linda com lua cheia e céu limpo, estrelado. Nos deitamos na pedra mesmo, um usando o outro como travesseiro, e eu fiz do "lindão" o meu e quando pus minha mão para trás afim de apoiar minha cabeça ela tocou a traseiro dele. Eu havia dito que a vida em Atibaia fora tranqüila, mas não sem as fofocas. Bom este fato de eu ter tocado por acaso o traseiro do cara junto as fofocas virou uma bola de neve rolando a montanha abaixo, rolando e rolando até chegar ao escritório da missão.
Fui chamado para prestar esclarecimentos sobre o fato. Eu disse que não foi proposital, mas é mais fácil acusar do que defender. É irônico, que eu já havia aprontado algumas e bem no fim por algo que realmente não fiz tenha sido feito tanto estardalhaço.
O presidente me chamou e disse que não era problema se eu deixasse a missão num grupo antes do meu. Eu que já estava de saco cheio de tudo aquilo, aceitei.
Hoje acho que foi algo do tipo "vou me livrar dele logo". O presidente sabia de todas as fofocas, e de todas as conversinhas. Acho que antes que eu fizesse mais uma bobagem ele me livrou daquilo. Os membros da igreja já estavam falando demais.
Atibaia foi tranqüilo, simplesmente porque eu não ligava mais para o que falassem. Eu deixei para lá, tranqüilo porque eu escolhi que seria tranqüilo, mas lá moravam alguns dos mais nocivos humanos que conheci. Cheios de orgulho e peçonha, capazes de olhar para você com ternura e dizer que te amava com a doçura do mel, para logo adiante destilarem o mais fino e nobre dos venenos, degradando e destruindo sua imagem para aqueles que nem te conhecem ainda, enquanto sentavam por cima dos seu próprios rabos emporcalhados de suas próprias maledicências.
Então uma semana antes de completar dois anos, deixei a missão com todas as honras e louvores desafiando toda e qualquer expectativa daqueles que me enviaram para ela.
Voltei para minha cidade natal deixando para trás a missão, JF, e um monte de magóas, porém levando comigo ainda o fardo de não ser o que queriam que eu fosse.