Fui para Juiz de Fora por convite de um tio que trabalhava na Siderurgica Mendes Junior, e precisaria fazer um estágio para completar meu curso técnico, e então de um dia para o outro eu estava morando em JF, uma cidade diferente da minha terra. Cheia de morros, ladeiras, montanhas, muito fria. JF era uma cidade muito fria mesmo. Meus amigos da minha terra natal, ficaram para trás.
No começo tudo foi um mar de rosas, mas a convivencia com minha tia e meus primos, foi se desajustando. Naquela época eu dava uma grande importância a Igreja, e passava pouco tempo em casa. A diferença do modo de vida era muito grande, meus tios eram bem sucedidos na vida, tinham de tudo do bom... e sempre passaram para todo resto familia a imagem de um casal que deu certo.
A casa deles , apesar de não ser no bairro de classe alta era bem acima dos padrões. Eu que havia crescido em uma casa que nunca fora terminada, devido ao devaneios de meu pai em querer construir uma casa maior do que suas posse o permitiam, me deslumbrava com aquilo. Som... estéreo, com discos laser, eram a novidade da época. Meu Deus !!!! Eu sempre quis ter um aparelho de som... computador, antena parabólica, uma cozinha de sonhos, maquina de lavar, videocassete.. filmes , filmes e mais filmes !!! Era um mundo novo para mim.
A Siderurgica era uma empresa enorme, meu tio me explicava como algumas coisas funcionavam lá dentro nos primeiros dias, e duas coisas foram marcantes, ele me perguntou se eu havia gostado do lugar , eu disse que sim, e ele me falou": "É importante você gostar do lugar que trabalha, porque você vai passar muito tempo lá..."
Em outra ocasião, eu disse com um ar de graça a maneira exagerada que a maioria da mão de obra comia. Por algumas vezes a bandeja e comida se transformava em um grande prato de aluminio, tanta era a comida que as divisões desapareciam. Então ele me disse com um tom mais serio : "Muitas vezes, aquela refeição é a unica que o cara vai ter naquele dia..."
Eu achei um pouco de exgero, mas não contestei.
Eu gostava muito de me sentar na sala de estar, e ouvir um disco da Simone que tinha lá. O sofá muito confortavel era um abraço nos fins de tarde quando chegava do turno do dia na Siderurgica.
Foi neste ambiente que conheci um garoto que morada na descida da ladeira, o Marcelo. O Menino humilde que chamava minha tia de dona... ela já era amigo da gente, mas fiz questão de ser proximo dele. Proximo demais.
Eu gostava de Marcelo... queria abraça-lo, mas era uma coisa sem jeito, para mim, sentir o desejo e não demonstrar... tudo muito complicado.
Marcelo engraxava sapatos para ajudar a mãe no orçamento da familia, filho mais velho de quatro nascidos, desde muito cedo aprendeu a responsabilidade de cuidar de todo mundo. O Pai trabalhava na coleta de lixo, ficava muito tempo ausente.
Marcelo, ele era tão carismático. Eu o queria para mim.... as coisas não eram como são hoje.
Um dia convidei-o para assitir filmes com a gente lá na sala da minha Tia. a gente ficou de baixo do mesmo lençol... como disse a cidade era fria demais... foi aí que toque-o pela primeira vez. Desculpe-me se não te falo de detalhes, não me lembro, mas me lembro bem dele saindo da casa da minha tia com o olhar zangado. Ele não gostou... Nem bem era um olhar zangado, pensando bem parecia uma coisa de decepção...
Depois ele se mudou para um outro bairro mais distante, eu fui visita-lo algumas vezes, um pouco antes da sua mãe falecer, mas com o tempo fui perdendo o contato...
Um dia por acaso encontrei-o na rua, ele estava usando um macacão Jeans muito bonito, tenis novo... muito feliz... perguntei a ele se ele estava trabalhando, ele disse que não, e que havia ganhado o tenis e as roupas de um Padre, e que também não estava morando mais com o pai , agora estava morando com o Padre.