quinta-feira, março 09, 2006

:: Capitulo XXI :: O Gerente

O Gerente do cinema tinha um ar de muito superior. Um negro alto, que sempre nos olhava de cima para baixo. Logo no primeiro dia ele se sentou em uma das cadeiras de engraxate que ficavam na frente do cinema e altivo, teve seus sapatos engraxados enquanto nos olhava fixamente. Na hora de fechar sempre chamava o Jorginho para "fechar o borderô"... se esta for mesmo a palavra certa. "Borderô", acredito eu , era o caixa. Mal começava a ultima seção lá iam os dois para dentro do cinema, enquanto eu cuidava das duas portas (eram duas salas de projeção).
Não sei como começou a antipatia do gerente por minha pessoa. Mas ele começou a me mandar fazer coisas fora da portaria. Uma delas foi desentupir a pia do banheiro masculino. Eu entrei na sala de projeção em direção ao banheiro. Ainda não contei isso, mas o cinema tratavasse de um cine teatro enorme daqueles antigos. Cinema com balcão, ou camarote. Um prédio que deveria ter sido muito bonito em seus tempos de glória. Acho que havia uma pintura no teto. Agora não passava de uma sala antiga, um museu. Ante os modernos confortáveis cinemas multiplex, aquilo não passava de um pulgueiro, e mal frequentado. Embora fosse a maior sala da compania, não havia dinheiro para manutenção, nem tão pouco interesse. Aquele lugar decadente só passava os filmes sem sucesso, era o fim da linha dos funcionários daquela companhia.
De volta ao banheiro, igualmente antigo e imundo, quando entrei me deparo com um homem se mastubando. Como ele estava de frente para o mictório e de costas para mim, nem deve ter notado a minha presença assustada na porta, e de lá mesmo voltei.
Cheio de complexos , cheio de medos, confuso comigo mesmo, meu coração batia forte. Nojo da cena. Na tela estava passando "Orquídea Selvagem", e um homem estava se masturbando no banheiro. Nojo...nojo.... arg !
Esperei lá fora que o cara saísse. Depois entrei para ver a tal pia entupida.
Alguém havia vomitado na pia e ligado a torneira. O material regurgitado entupiu o ralo da pia... a louça branca com marcas de ferrugem já era nojenta por si só, agora estva cheia de vomito e água suja. Não havia outra maneira de desentupir a não ser metendo a mão naquele caldo. Tive odio daquele emprego. Homens se masturbando... vomitos... um prédio decadente em um lugar decadente. Em frente ao cinema juntavam-se menores de rua cheirando cola. Hoje eu me pergunto porque eu estava ali. Pedi a Deus uma solução para o entupimento... encontrei no baneiro mesmo um pedaço de um arame duro que enfiei instintivamente no ralo. Não funcionou... tornei a introduzir o arame e de repente a guas vomito e tudo mais começou a descer pelo ralo... apenas abri a torneira para mandar o resto que ficara nas paredes da louça.
"- A pia está desentupida. "
Eu disse aquilo num tom monocórdio, baixo, porém olhando diretamente nos olhos do gerente. Ele fez algum esforço para disfarçar o ar de surpresa. Dei as costas e voltei para minha portaria. Eu sabia que aquilo não acabaria por ali.